sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A outra metade


"Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

'Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!'”



Camilo Castelo Branco

Julgo este grande Senhor verdadeiro merecedor de ver os seus poemas divulgados.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Resposta ao 'post' anterior


"Versejas sobre a “Espera”
Por nada estares a fazer.
Mas repara e recupera
O que acabas de escrever.

Porque se voltares a ler
Vês que escreves sobre a vida
Sobre o que é “não saber”!!...
O que toda agente olvida,
E torna tudo engraçado:
Se por causa de um amor,
Tu mesmo hoje soubesses
Que amanhã sofrerias,
Tentavas evitar a dor
E mesmo que tu quisesses,
Já nem esse amor vivias."



Manuel Matos

12-01-2012
Em resposta rápida ao meu filho Ricardo Matos

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Espera


Porque é que eu nunca sei o que me espera,
No decorrer de toda a minha vida?
Dizem-me que “quem espera desespera”
E eu só vejo um caminho de ida.

O preço de um erro pode ser caro,
Pode acontecer que eu tempo não tenha
Para voltar atrás, momento raro
Numa vida que o homem não desenha.

O que fazer então? Pergunto-me eu…
Hei-de esperar a ver o que acontece?
Mas por isso fazer ele sofreu

Sem que por isso o homem conta desse.
Sofrer traz sempre uma imensa dor,
Seja por morte, raiva ou amor…



Ricardo Matos

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía."



Luiz Vaz de Camões


Que mais dizer senão ... INTEMPORAL!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Segue vida!


O que sinto que é vago
É a merda quando cago,
Tudo resto tem de ter
Sempre uma razão de ser.

Tem de me dizer sempre algo
Tudo quanto na vida galgo,
Porque sem sentido não existe
Vida que muito tempo resiste.

Farto das infrutíferas lutas
Ide embora filhas das putas!
Levantar com algum sentido

É pra isso que tenho vivido…
Espero para o ano conseguir
Com a minha vida para a frente partir!


Ricardo Matos

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

À espera


Sinto que perco o meu controlo
Quando olho agora à minha volta.
Fecho e abro os olhos: “seu tolo”,
Digo pra mim com revolta.

Porque sinto que perco tudo?
O que sinto que de mal faço?
Sem conseguir falar, fico mudo
E chateado … não tenho nervos d’aço.

Não caibo em mim de insatisfação
Por ver o que me rodeia de mal.
Quero o bem, a perfeição,

Mas tal só em cenário teatral.
Vou esperar-te aqui sossegado,
Se avanço muito vai sair tudo errado.




Ricardo Matos

domingo, 16 de outubro de 2011

A Água


"Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche
e lava a boca depois de um broche."


Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage


Este Grande Senhor que foi um Grande Poeta de Portugal que nos deixou um legado enorme e riquíssimo da nossa literatura! Por muitos esquecido ... talvez para muitos desconhecido! Faça-se justiça a este Grande Senhor que continua com poemas contemporânios!

Por isso meus amigos ... POUPEM ÁGUA!