domingo, 20 de março de 2011

Poema em linha reta


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."




Álvaro de Campos

sábado, 19 de março de 2011

Preterido


Foi da maneira como és que te vi,
Doce e delicada no teu falar.
“O meu desejo”, pensei, “já cumpri!”
Deu resultado tanto procurar.

Mas tu as tuas costas me voltaste,
Vejo-me outra vez sem norte, sem rumo,
Mas muito descontraída ficaste
Ao sol da tarde, bebendo o teu sumo.

Voltas dou para me reencontrar,
Mas é de mim que eu devo andar escondido.
Não sei até onde isto irá parar,

Estou farto de ser sempre preterido!
Diz-me mundo o que deverei fazer
Para um dia ser eu a ter prazer!



Ricardo Matos

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sem doer


Não sei o que foi,
Mas sei que passou.
Não sei porque dói
Nem o que acabou.

O tempo atrás não volta,
Mas as lembranças ficam
E no futuro vês, se houve ou não revolta,
De todas as coisas de que se abdicam.

Vais e vens assim que queres?
Achas que a história se repete?
Por mais parecida que possa ser

De que seja a mesma não esperes.
Anseia que o grande ciclo se complete
E que tudo acabe sem doer.




Ricardo Matos

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

“Amor” sem “amor se paga”


Amar o amado com amor
É de levar o coração ao desgaste,
Pois quem ama é um sofredor
Sabes que sim se foi com fulgor que amaste!

É fogo fátuo no peito
Se sem resposta se ficar
E sei que é de ficar desfeito
Por quem se ama não nos amar!

Mas a vida assim prossegue
Muitas vezes sem direcção
Ao sentires que ninguém te segue

E te alumia o coração!
É amor de que se necessita…
De amor forte que de vida te suscita!




Ricardo Matos

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Público do Blog - Maio de 2010 / Janeiro de 2011 // Public Blog - May 2010 / January 2011


Olá a todos.

Apesar de já estarmos a 21 de Janeiro, aproveito, desde já, para desejar-vos um excelente ano de 2011.

É com muito agrado que verifico que o meu Blog, desde Maio de 2010 (altura a partir da qual há registo de visitas) já recebi 675 visitas ao meu Blog.

Agradeço a todos quantos o lêem, espero que seja mesmo do vosso agrado, tanto os meus poemas, como os poemas dos meus compatriotas que tanto fizeram pela cultura deste lindo país que é Portugal.

Sejam muito bem-vindos, mais uma vez, e peço-vos que comentem sempre que puderem.

Obrigado.

--

Hello everyone,

Although we are already on January 21, I take this opportunity to wish you an excellent 2011.

I'm very pleased to see that my blog since May 2010 (the moment from which has notes of visits) has received 675 visits.

Thanks to all who read it. I hope it really pleases you, both my poems, like the poems of my compatriots who did so much for the culture of this beautiful country that is Portugal.

Be welcome, once again, and I ask you to comment whenever you can.

Thank you.

PS: Sorry about my poor english.


Ricardo Matos

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os Amigos


"Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

'Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.'
- Que cento e nove impávidos marotos!"


Camilo Castelo Branco

Eça de Queiroz


«Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: “o país está perdido!”
Algum opositor do actual governo?... Não!»



disse Eça de Queiroz no ano de 1871.

Pessoal ... estas palavras vão fazer 140 anos!!!! Estão actualíssimas!